É certo que, se parasse para pensar, não teria saído tão desesperadamente da forma que sai daquela casa maldita, sem olhar para trás, sem perceber que acabei levando comigo o bem mais precioso que podia ter naquele momento: minha dignidade.
Fui-me embora sem me tocar que corri mais de alguns muitos quilômetros, com as vestes sujas e dilaceradas, cortes aparecendo dentre o vestido rasgado, os cabelos emaranhados e o suor impregnado até mesmo em meus lábios, que doíam.
Parei e me apoiei nos joelhos por alguns minutos. Ofegava bastante, sentindo o ar escapar dos pulmões. Não havia sinal de perseguição, de maneira que me acalmei e continuei, cambaleando de cansaço e dor, até onde me desse na telha.
Sem perceber, acabei na porta de Marilac, desabando nas escadas da frente, deixando a dor dos músculos invadir e a lembrança quente daqueles momentos sem razão que acabaram de acontecer.
Acho que minha amiga ouviu minha queda proposital nos degraus e abriu a porta lentamente, para verificar quem podia ser e então, foi tomada de susto e preocupação:
- Joana? É você? Oh, Credo! Que houve?
Movi lentamente a cabeça, virando o rosto para ela e, sem conseguir dizer nada, entoei um choro magoado e cansado, em fúria.
Marilac me pegou nos braços e com a delicadeza e cuidado de mãe, me colocou em sua cama, deslizando as mãos sobre meu rosto, enxugando minhas lágrimas. Percebi que estava no lugar mais confortável do mundo e antes que deixasse minha amiga me convencer de que deveria comer algo e contar a ela o acontecido, mergulhei em um sono profundo e necessário. Deixei que o inconsciente tomasse conta, me inundando, a cada hora, de mais e mais esquecimento.
***
Já passava do meio dia de domingo quando senti o corpo todo doer e ouvi Marilac ao telefone, cacarejando para lá e para cá, tentando, das formas mais desesperadas, convencer o médico, Dr. Jackson Nogueira, a comparecer naquele recinto, o mais rápido possível. Constatei que a visita seria para diagnosticar meu estado, digamos, deplorável, a começar pela aparência de morta-viva.
Tentei levantar da cama em um esforço ridículo e sabia que de nada ia adiantar querer sair dali. Talvez fosse o melhor lugar para estar, visto que ninguém me procuraria, justamente por saberem que Marilac e eu não nos falávamos há mais de dez anos.
Ouvi seus passos e, quase na ponta dos pés, se aproximou da cama. Notou que eu já estava acordada.
- Chamei o Jackson aqui para dar uma olhadinha em você. Não conheço outro médico decente nessa cidade e, como somos amigos, ele concordou na hora.
- Mentirosa - disse, ensaiando um sorriso.
- Diga... que houve? Para aparecer em minha casa, ainda mais nesse estado, não foi nada bom.
Senti um enorme peso no peito, como se quisesse me livrar de todas as histórias podres e nefastas que podia lembrar sobre meu casamento de merda, sobre minhas noites em claro assistindo filmes antigos e chorando ao ver meu sangue pingando no chão, sobre minhas duas filhas que perdi em aborto, sobre as longas horas trancada no sótão daquela casa miserável, cheia de amargura e desilusão... sobre como senti a falta da minha única amiga, que sempre quis o meu melhor e desde o primeiro dia que conheceu Diego, disse: Não gosto dele. Não é bom o bastante pra você. Na verdade... Não é bom de jeito nenhum.
Tentei conter as lágrimas e puxei a mão de Marilac para perto e a apertei com força, de olhos fechados, como se para transferir minha dor àquele gesto.
- Sinto Muito - disse com os olhos cheios de lágrimas - Por todos esses anos, por tudo.
Marilac apertou meus dedos como se aquilo fosse o abraço longo e sentido que deveríamos ter tido naquele momento. Abaixou a cabeça em um suspiro e levantou o rosto banhado de lágrimas volumosas. Só nós duas sabíamos o peso daqueles anos distante uma da outra.
- Não precisa se desculpar. Não é hora disso. Conte-me o que aconteceu... Estou preocupada! Já se olhou no espelho? Jackson vai ter um treco quando ver você assim! Sabe há quantos anos ele não a vê? Acho que desde o dia em que o abandonei no altar... coitado... Enfim! Desculpe... estou nervosa... como sempre, falo pelos cotovelos.
Não percebi, mas estava sorrindo sutilmente.
- Sei que podem passar mil anos se quiser, mas jamais me sentirei desconfortável em falar nada a você, Lila. - chamava Marilac de Lila desde os cinco anos de idade, quando morávamos no interior - Já deve imaginar... É sobre Diego.
Marilac, que ainda estava sentada na ponta da cama, se deitou ao meu lado, abraçando um travesseiro e me olhando de lado, o rosto quase colado com o meu.
- Desembucha. Mas vou logo avisando que, se ele for a causa desses arranhões, vou chamar o Norões. - Norões Albuquerque era o delegado de polícia daquele muquifo de cidade. Nunca foi fã do meu marido, ainda mais depois que meu pai, antes de morrer, prestou a primeira queixa de maus tratos, diretamente à Norões, que tratou de dar uma surra encomendada em Diego.
- Não chame. Agora que é rico, Diego iria mandar matá-lo. E dessa justiça torta não quero fazer parte. Mais do que já faço... Há muito para contar, Lila. Anos de tristeza que nunca pensei acabar. E, nesse momento, sinto que posso ter uma nova chance. Recomeçar. Sai correndo da mansão e vim parar aqui, sem saber. Foi o destino... ou meu anjo, que me guiou até você.
- Foi não, Joana. Foi instinto.
*** A Continuar...
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