Ela não conseguia dormir.
Tinha que tomar um remédio às duas da manhã, tinha que trabalhar às sete, tinha consulta no médico às onze, almoço com a melhor amiga uma da tarde, aula às três, pegar roupas na costureira às seis, comer algo lá pelas oito, ler alguma coisa até às dez, dormir quando conseguisse...
Numa rotina inesperada, cansada e invertida, que horas ela iria parar de sentir saudades?
Qual o momento em que o coração se desvincula, se permitindo imergir na realidade e não mais em sonhos inacabados?
O relógio faz tic-tac, a cortina balança com o vento frio da madrugada, um carro ou outro passa na rua... os gatinhos se mexem sonolentos na cama, alguns livros novos na estante, mais uma foto no mural, preguiça de apagar a luz da cozinha, e um sono que nunca chega.
A correria do dia-a-dia esperava esse momento chegar, quando além das lembranças corriqueiras, a imaginação da noite percorria as memórias recentes, fazendo recordar de um tempo que mal passou, mas já faz uma falta danada.
Ela foi para a varanda, ascendeu um cigarro.
A fumaça ia-se embora noite adentro...
E cada pedaço de saudade ia se confinando no pensamento, nada ia-se com a fumaça nem o vento, tudo ficava e dava um nó.
3 comentários:
Um bom texto. Parabéns!
Bia bia...esse texto é só TU-DO o que eu sinto há tempos e nunca consegui colocar em palavras.
Sério...ler esse texto me dá muita vontade de te dizer 'obrigada'.
A madrugada se faz propicia a pequenas e grandes lembranças, só temos que determinar até quando! Até quando essas lembranças iram-nos “assombrar”. Acender o cigarro e sentir o vento assoprando a face é bom! Ruim é a vontade de seguir com o vento e sentir rolar neste momento uma lagrima de saudade. rs
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